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Depoimentos das Diretoras

Laerte-se

Lygia Barbosa da Silva:

Foi no primeiro encontro numa padaria de São Paulo que tudo começou. A ideia de fazer um filme sobre uma história que ainda ia acontecer com Laerte Coutinho era no mínimo o maior desafio da minha carreira. Ali começava um filme sem roteiro, sem pesquisa, sem saber o que viria pela frente. Como fazer?

Com Eliane Brum fomos descobrindo este caminho. Trabalhamos juntas pela primeira vez e construímos também nossa história. Não queríamos estabelecer regras, buscamos desconstruir padrões. Conversamos longas horas nos questionando como seria. Respeitamos nossos espaços e juntas entramos no espaço, na casa, na vida de Laerte. Ganhamos confiança entre nós três.

Durante três anos fui conhecendo Laerte e Laerte me conhecendo. Quando não filmava com Eliane, filmava a maior parte do tempo sozinha, sem equipe. Não daria pra ser de outro jeito, se o que buscávamos era intimidade. Foram dias divertidos, às vezes tensos, às vezes eu incomodava, às vezes me sentia incomodando. Havia dias que Laerte não queria filmar, havia dias que batia aquela incerteza se eu conseguiria fazer o filme. Teve dia que voltando pra casa parei o carro e chorei de emoção porque, enquanto filmava, não podia. Também houve dias que não filmei, mas carregamos caixas, conversamos, fomos ao supermercado, fizemos as coisas normais da vida.

Foram histórias paralelas, a gente com Laerte e a gente com a gente. Depois a gente com produtor, roteirista, editor, maestro, editor de som, animador, gravadoras, etc. Muitos acontecimentos com vitórias e derrotas.

Não é fácil construir, descontruir, desatar os nós e tecer uma historia. Escolher os momentos e pensamentos de tudo que gravamos durante estes três anos para contar um pequeno fragmento da vida de Laerte exigiu de mim tudo aquilo que apreendi na vida.

Eliane Brum:

Conheço poucos cartunistas no mundo que consigam produzir tanto movimento interno nas pessoas como Laerte. Meu marido anda com algumas de suas tiras na carteira. Assim como alguns carregam fotografias de filhos e de amores, ele as coloca ali como retratos de seus dilemas mais profundos. Assim, Laerte sempre fez parte da minha vida cotidiana, já que suas criaturas falavam com as nossas, com as minhas. E falavam cada vez mais.

Quando soube que Laerte, o criador genial, tinha passado a se apresentar como mulher, isso produziu uma interrogação em mim: afinal, o que é ser mulher? Eu nunca precisei pensar sobre se era ou não uma mulher. Mas também nunca achei que soubesse o que é ser uma mulher. De repente, Laerte anunciava que estava fazendo uma investigação sobre a mulher que era. O que descobriria? Que caminhos percorreria? Há resposta para esta pergunta?

Estas eram as questões que giravam na minha cabeça e sobre as quais escrevi um artigo numa revista. Além de uma curiosidade enorme pela liberdade de se experimentar de Laerte, que foi tão bem definida pelo verbo que circulou pelas redes sociais, já conjugado no imperativo, e que acabou por dar nome a este filme: “Laerte-se”. Quando Lygia e Alessandra me convidaram para participar deste documentário, eram essas as interrogações que me moviam. Logo na primeira entrevista ocorreu algo revelador. O primeiro encontro foi na minha casa, porque Laerte não estava confortável com a dela. Eu fui fazer café e, ao servi-la, botei sal em vez de açúcar. Quem é o quê, afinal?

Quando começamos, Laerte estava às voltas com uma questão: a da intervenção sobre o corpo. No caso, um implante de seios. Ela pensava em colocar peitos, mas era preciso ter peitos para ser a mulher que se tornava? Os peitos eram um desejo ou uma agenda identitária? Nossa ideia de partida era percorrer com ela essa trilha que levaria aos peitos – ou a lugares não anunciados.

Mas Laerte é esta criatura que se interroga, sem jamais achar que encontrou uma resposta que não leve a outra pergunta. Assim, perder-se com ela era também nossa escolha ética, como documentadoras. A cada pergunta surgiam dezenas de outras. E o documentário foi sendo construído como uma trama de perguntas que levavam a mais perguntas. E a perguntas cada vez mais intrincadas.

Eu e Lygia fomos encontrando nosso lugar dentro dos espaços às vezes largos, às vezes estreitos que habitávamos em nossa experiência com Laerte. Penso que este espaço próprio, de cada uma de nós, foi fundamental para que o documentário alcançasse as várias camadas de Laerte. A densidade, mas também a leveza. As contradições, mas também a irreverência. Os afetos, a solidão. A fragilidade, a insegurança, a gênia que não sabe que é. O duvidar constante de si. A vida, com tudo e o tanto que é.

Como criadora genial, Laerte era há muito uma figura pública. Depois de se apresentar como mulher, tornou-se midiática. Deu entrevistas em quase todos os programas do gênero no Brasil, fez ensaios nua. Tudo com ela acontecia num palco. Nosso desafio era encontrar uma outra nudez. Uma outra nudez do corpo e uma outra nudez das palavras. Assim, Lygia mergulhou nas delicadas brechas do cotidiano, eu nas brechas das palavras e dos silêncios. Laerte nos presenteou com sua confiança. E entregou-se. Ela também estava curiosa com o que descobriria de si. Quando finalmente entramos na sua casa, sabíamos que havíamos dado um passo decisivo para dentro. Laerte, que se interrogava sobre reformar o corpo, começou a reformar a casa.

Da mesma maneira que as tirinhas de Laerte iam construindo uma narrativa labiríntica, o documentário também haveria de se tornar labirinto. Não se tratava ali de um corpo acabado, mas de um constante tornar-se. O quê? Ou quem?

A certa altura, durante uma entrevista, Laerte pergunta: “não estamos dando voltas aqui?”. Sim. E não. Haveríamos de estar sempre entremundos neste documentário. Ninguém sai de fato de um labirinto. O labirinto é aquele que se carrega.