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Sorrisos no Lixo

Por Raphael Scire

Na terça feira em que o frio bateu recordes negativos em São Paulo, Vinícius não foi à escola. Faltara por causa da chuva forte do dia anterior e que deixara sua casa ilhada no bairro Vila Sonia, em Itaquaquecetuba, divisa com o Jardim Romano, extremo da zona leste paulistana e famoso por aparecer todos os anos no noticiário revelando a precariedade das condições de vida da população, vítima das enchentes que ano após anos alagam as ruas da região e deixam seus moradores desesperados.

Vinícius é um dos três filhos de José Augusto, catador de lixo que faz da sujeira do Rio Tietê sua fonte de renda. Vinícius tem 14 anos, um irmão gêmeo e é um menino extremamente tímido. O irmão caçula, Mateus, compartilha com ele a timidez. Vitor, o gêmeo, está retido na Fundação Casa após ter se envolvido em uma confusão e da qual acabou preso. Depois de ir buscar pão para a família, encontrou alguns amigos, “más companhias”, segundo a mãe Cecília, e foi abordado por policiais. Assustado, Vitor correu, motivo suficiente para que fosse detido por 45 dias. Cecília e José Augusto já passaram da fase do desespero e sabem, resignados, que não têm muito o que fazer para tirar o filho da cadeia. O caso está na mão de uma advogada.

A família de cinco pessoas vive mensalmente com 500 reais, renda complementada por mais “duzentos e pouco” que José Augusto ganha de pensão após ter perdido a ponta do dedo indicador esquerdo na época em que trabalhava com ferragens para uma empresa terceirizada da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a CPTM. Ele não sabe precisar sua renda, mas garante que é menos de um salário mínimo. Também não sabe ao certo o sobrenome de sua família. A idade, só se recorda porque compartilha com a esposa: 52 anos. Nem mesmo a época em que veio para São Paulo, fugido da seca do sertão alagoano, ele sabe dizer. Apesar de todas as agruras, todos eles mantêm o sorriso no rosto, tarefa difícil para quem vive em condições mais do que adversas.

Na várzea do Rio Tietê, que qualquer pessoa que viva em São Paulo logo reconhece pelo mau cheiro, a família se divide em uma casa apertada, construída metade de alvenaria e metade de pedaços de madeira. Um banheiro improvisado divide espaço com as camas postas lado a lado. Privacidade inexiste, tanto para o casal quanto para os filhos. Há, ainda, espaço para um passarinho engaiolado, três cachorros e mais a cria de quatro filhotes que a fêmea da família acabou de ter. Se por fora, o lixo do Tietê acumula-se ao redor da casa, por dentro a situação é completamente diferente: a limpeza é contrastante.

Quando chove, o campinho de futebol em frente ao barraco em que vivem torna-se uma lagoa poluída e a única alternativa de diversão para eles vira um motivo de preocupação. A alegria, não raro, dá lugar à angústia de ver a casa alagada e perder os poucos pertences que têm, muitos dos quais recolhidos do lixo das ruas.

Tijolos criam mofo no descampado alagado em frente à casa de José Augusto. A pobreza extrema, porém, não impede pequenos cuidados, como um jardim improvisado diante da porta de entrada. A água em excesso acabou com o pé de mamão que José Augusto plantou, mas o capim santo segue firme, resistente às intempéries da natureza. O mesmo capim santo é ingrediente para o chá que Mateus serve aos visitantes.

Receptivos, José Augusto e a mulher abrem as portas de casa e oferecem café à equipe. Em um instante, porém, o caçula volta do armário de mantimentos e muda de ideia: diz que irá preparar um chá. Não é difícil imaginar o porquê da mudança: não há pó para preparar café. A despensa está visivelmente vazia.

O ganha pão de José Augusto acaba sendo ambientalmente providencial. É da sujeira do Tietê e redondezas que ele ganha a vida e sustenta a família. Sua atividade é na mais completa informalidade. Augusto e a esposa, que o acompanha nas peregrinações em busca de material que consiga vender, não contam com nenhuma garantia caso sofram um acidente. Estão sujeitos a todo tipo de doença.

E doença é o que não falta em uma área como a que vivem. Os mosquitos sobrevoam a casa em que vivem e já nem mais incomodam os habitantes. Em uma época em que o Brasil se viu assolado pelo avanço da dengue, da zika e da chikungunya, doenças transmitidas pelo aedes aegypti, famílias como as de José Augusto encontram-se na mais completa vulnerabilidade. A saúde, na região em que vivem, parece funcionar para estancar a sangria de uma população que vive na UTI, mas não para curar a hemorragia.

O sonho de Cecília é comprar uma Kombi velha de um conhecido. Assim, nem ela nem o marido teriam mais que empurrar a carroça de lixo pelas ruas de Itaquaquecetuba. Juntos, os dois rodam cerca de 15km diariamente e só não trabalham em dias de chuva, por razões mais do que óbvias. A Kombi custa cerca de 9500 reais e o casal tem ciência de que a família não tem de onde tirar o dinheiro.

Uma alternativa para o veículo seria a construção de um bote no qual José Augusto, na companhia dos filhos, pudesse “navegar” Tietê abaixo coletando dejetos.. Mais uma vez, a falta de dinheiro fala mais alto. Para tornar o bote viável, ele teria que abrir mão de 900 reais, quantia da qual também não dispõe. Antigamente, ele chegou a fazer da porta de uma geladeira velha o “barco” no qual percorria o rio. Não durou muito e o jeito foi voltar a puxar a carroça.

Segundo dados da ONG SOS Mata Atlântica, 157km do Tietê estão mortos, completamente cobertos por uma mancha de sujeira. Pelas curvas do rio, a chance de encontrar materiais mais pesados, e, consequentemente, mais valiosos para revender a cooperativas de reciclagem é bem maior. Mas também não chega a ser fato raro que José Augusto se depare com corpos boiando na sujeira do Tietê. Ele mesmo conta que já ajudou os bombeiros a remover um corpo desovado nas imediações.

A família de José Augusto, infelizmente, é só mais uma das muitas que vivem Brasil afora e para as quais o poder público dá as costas. Vivem, ou melhor, sobrevivem, com o pouco que tem. Mantêm, sim, um sorriso no rosto, mas se pudessem, certamente sorririam bem mais.